
A sessão plenária do Supremo Tribunal Federal (STF) desta semana rompeu a liturgia tradicional da corte para transformar o plenário em um palco de acusações diretas e trocas de farpas que rapidamente transbordaram para as redes sociais. O embate entre o ministro Alexandre de Moraes e o ministro André Mendonça dominou as atenções, marcado por um tom pessoal que deixou de lado a formalidade jurídica para dar lugar a uma disputa retórica carregada de tensões políticas acumuladas desde o período das eleições de 2022.
A retórica do medo e o questionamento à PF
O ponto de inflexão das discussões ocorreu quando o questionamento sobre a atuação da Polícia Federal (PF) e a suposta existência de um monitoramento paralelo de ministros veio à tona. Ao reagir às falas de Mendonça e do ministro Luiz Fux, Moraes subiu o tom com uma indagação que rapidamente se tornou o slogan do dia nas plataformas digitais: “Quem tem medo da Polícia Federal?”.
O ministro não parou por aí e aprofundou o confronto ao revirar bastidores de colaborações premiadas. Segundo Moraes, existiram episódios em que o próprio Mendonça teria solicitado a inclusão de seu nome em delações específicas. A acusação, proferida com ênfase, sustenta que o ministro teria pedido para incluir o nome de Alexandre em uma colaboração premiada sob a justificativa de que este estaria “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país”. A reação de Mendonça, que interrompeu a fala com gritos de “mentira”, tornou-se o corte mais viralizado da sessão, servindo como combustível para a polarização que já tomava conta das discussões online.
A estratégia do contra-ataque e o debate processual
Para além das trocas de acusações pessoais, o debate revelou visões distintas sobre a regularidade dos procedimentos internos do tribunal. Moraes foi incisivo ao negar a existência de qualquer pedido formal de investigação contra ele, seja por parte da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República. Ao classificar o relatório divulgado por Mendonça como uma “tentativa de vingança” e uma “farsa” arquitetada para ganhar tração política na véspera do 7 de setembro, o magistrado buscou deslegitimar as críticas, tratando-as como movimentos eleitorais.
A gravidade das declarações escalou quando Moraes acusou diretamente o colega de ter encomendado um “dossiê criminoso” em maio deste ano, com o intuito de vazar informações sensíveis à imprensa. Essa linha de argumentação, que liga a figura de Mendonça ao bolsonarismo e aos atos antidemocráticos de 2022, polarizou o público digital. Enquanto apoiadores do ministro reagiram com indignação, parte da esquerda celebrou o confronto como um enfrentamento necessário. O resultado foi a transformação da sessão em um fenômeno de “segunda tela”, onde os usuários acompanhavam as falas em tempo real, gerando memes, cortes de vídeo editados e hashtags que rapidamente dominaram o cenário do debate público, consolidando a percepção de que, naquela tarde, o STF funcionou menos como um tribunal e mais como o epicentro de uma disputa política aberta que não pretende arrefecer nos próximos capítulos.


